Nova Xavantina: uma história de covardia, sangue, morte e indignação popular.

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Sebastião Teodoro, ou simplesmente Tião, não foi executado por razões políticas. O policial que integrava o aparelho repressor tinha prazer em torturar e matava por qualquer razão ou sem razão. A imagem aqui usada ganha relevo por ser emblemática. Foto: Evandro Teixeira

Noite de sábado. 15 de maio de 1982. No Ranchão do Careca, então localizado nas imediações do antigo Grupo Escolar, acontecia o tradicional forró de final de semana.

Sebastião Teodoro Nascimento, guarda do Colégio JK, carinhosamente chamado apenas de Tião por estudantes, professores e conhecidos em geral, mal colocou os pés na porta de acesso do barraco de festas, foi brutalmente executado a bala por um policial civil conhecido por Niltamar.

Na época, eu tinha 17 anos ou coisa próxima.

Fiz um relato de tudo. Gravei uma fita k-sete. Um amigo emprestou o gravador, uma caixa de som e o áudio foi reproduzido algumas vezes. A aglomeração de pessoas consternadas chamou atenção e mais pessoas se aproximavam.

A abreviatura do nome com as duas primeiras letras não foi o suficiente para garantir o anonimato e para dizer a verdade, essa também não era a intenção. O tempo exigia coragem e certa irresponsabilidade.

O então delegado, Dr. Jonas, mandou seus milicos recolher tudo e conduzir o narrador e agitador Edésio do Carmo para a delegacia, onde foi humilhado, constrangido e ameaçado de morte por vários “samangos”, principalmente pelo assassino que acompanhou de perto seu interrogatório.

Não me intimidei. Não desisti. Nunca fui ensinado a conjugar esse verbo. Não tive medo, coloquei tudo no papel e despachei nos Correios para o combativo jornal Tribuna Operária de São Paulo.

No final de junho do mesmo ano, alguns exemplares chegaram. Não recordo a data exata. Sei que fui ao campo de futebol da FAB. Não pude distribuir todos os exemplares.

Fui preso novamente e reconduzido à Delegacia de Polícia Civil. Desta vez, algemado e com o couro ardendo.

Na época, o guatambu tinha utilidade. Tive sorte. Meus algozes preferiram fazer uso de uma correia ou pedaço de mangueira. As costas choram. A alma sangra.

Nada, no entanto, se equipara ao covarde assassinato de um trabalhador inofensivo. O negro Tião, o guarda escolar que tinha o sorriso mais cativante da cidade e era um amigo irmão de todos os estudantes.

Sem querer achei isso hoje e sem nenhuma pretensão rabisquei esse texto. Memória viva de quem viveu parte do período de exceção. Se isso diz alguma coisa, viva a democracia! Eu ajudei construí-la.

O atual prefeito de Nova Xavantina, João Batista Vaz da Silva, conhece essa história. Se achar conveniente, que a memória de Tião, uma das vítimas da violência policial durante a ditadura militar na cidade, não seja enterrada para sempre nas brumas do esquecimento.

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