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COLUNISTAS Segunda-feira, 05 de Abril de 2021, 07:23 - A | A

05 de Abril de 2021, 07h:23 - A | A

COLUNISTAS / SUELME E FERNANDES

Obituário Clóvis Irigaray Clovito (1949-2021)

Suelme E Fernandes*



Foto: Divulgação

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Não sou crítico de arte, mas certamente Clovis Irigaray nascido em Alto Araguaia MT, que nos deixou hoje, está entre os maiores artistas plásticos de Mato Grosso, quiçá do Brasil.  

Foi quem primeiro olhou o contato entre brancos e índios nos anos 70 em Mato   Grosso com coragem artística e crítica.   Sem o romantismo de José de Alencar e da literatura que influenciou parte das artes no Séc. XX, foi  um modernista, um tropicalista empedernido.  

Massacrou com seu pincel de ouro Peri e Ceci e o mito do Bom Selvagem de Rousseau. Alguns o consideravam um gênio revolucionário, crítico da “aculturação” desses povos e para outros apenas um artista louco.  

Fotos cedidas pelo articulista

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Sua obra virou referência para antropólogos e artistas do Brasil inteiro, capas de livros e cartazes de encontros indigenistas das Ciências Sociais Brasil afora.  

Clovito era um indigenista dos pincéis e assim foi a vida inteira, reverenciava nossos ancestrais com suas cores e matizes.   Quando na Ditadura de 64 os militares discutiam a Amazônia legal, ele pintou um índio como professor num quadro negro ensinando os engravatados. 

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Quando fundaram a Uniselva UFMT em 1970 Irigaray pintou um índio na biblioteca da universidade estudando.  

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Quando o homem foi a lua ele colocou um índio com Armstrong no espaço sideral e colocou uma Coca-Cola numa esteira de palha num banquete das crianças xinguanas no meio da mata.  

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Não satisfeito de questionar o poder político e a cultura de massa, questionou a catequização dos índios, profanando os símbolos sagrados dos católicos.   Pintou índias como madonas renascentistas e índios com o sagrado coração de Jesus no peito e outras tantas alegorias. Numa delas batizou como “O Sagrado Coração do Xingú”.  

E assim foi pintando, confundindo a percepção dos repressores e reacionários com sagacidade e ambiguidade.   Para os olhos dos sensores militares, ele fazia apologia ao progresso e a catequização, mas para os militantes da esquerda era um grito de protesto contra o extermínio dos índios.  

Sua obra foi um discurso pelo direito à diferença e a uma abertura na arte para um pensamento-outro. Imaginou o Índio Santo, o Índio Imperador e o Índio Intelectual.  

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Hoje isso se chama decolonialidade, mas antes, nos anos 70, esse conceito não existia, para muitos não passava de devaneio de um artista louco.   Clovito como era conhecido, era assim, tinha um terceiro olho que via nossa alma por dentro da floresta de mentiras que estão em nossa volta.  

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O artista era tão apaixonado pela pintura que seu corpo virou uma galeria, uma obra de arte ambulante que  foi tatuando com o tempo. Que os espíritos da mata e os velhos xamãs o conduza de volta na sua grande viagem a aldeia sagrada.  

Obrigado Clovito por nos ensinar a enxergar o essencial que é quase sempre indizível.  

Suelme E. Fernandes Mestre em História pela UFMT

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