Da Redação
Blog Edição MT
A decisão do vereador Dilemário Alencar (UB) de destinar R$ 1 milhão — uma verba pública expressiva — para ações de “prevenção e combate ao uso de drogas” em praças e espaços públicos de Cuiabá revela uma política pública míope, higienista e profundamente desconectada da realidade humana que envolve a dependência química.
Apesar do discurso ostensivo de “segurança” e “ordem”, a prática defendida pelo parlamentar se assemelha perigosamente a uma faxina social. Em vez de enfrentar o problema com responsabilidade e empatia, a proposta reduz pessoas em sofrimento a um incômodo visual, algo a ser varrido para longe do centro da cidade para agradar o fluxo turístico e comercial — ainda que o drama dessas vidas continue pulsando, invisível e ignorado, em outras esquinas.
A dependência de substâncias químicas — lícitas ou ilícitas — é um transtorno complexo, uma doença que demanda tratamento, acolhimento, psicologia, psiquiatria, programas de reinserção e políticas públicas sérias de assistência social. Nada disso aparece na proposta do vereador. Ao contrário: sua iniciativa aposta em repressão, remoção e expulsão, como se o sofrimento humano pudesse ser deslocado com caminhonetes da prefeitura.
É estarrecedor que, em pleno século XXI, uma gestão municipal ainda receba com naturalidade recursos públicos destinados a práticas que ressoam segregação, abandono e criminalização da pobreza. Chamar isso de “política de combate às drogas” não disfarça o verdadeiro sentido: trata-se de uma política de combate às pessoas que são vítimas das drogas.
O investimento milionário entregue à Secretaria Municipal de Ordem Pública, comandada pela delegada Juliana Palhares, reforça um modelo que prioriza a estética da cidade e ignora o destino dos seres humanos empurrados para fora de seu espaço urbano. A solução não está em expulsar, perseguir ou esconder. Está em oferecer tratamento, apoio psicológico, abrigamento digno, qualificação profissional e oportunidades reais de retorno ao mercado de trabalho.
Sem esse olhar humano, qualquer “combate” é apenas maquiagem.
Cuiabá precisa decidir se quer ser uma cidade bonita ou uma cidade justa. Porque, com políticas como a de Dilemário Alencar, fica evidente que o foco é apenas limpar as calçadas — não curar as feridas.












