Jackeline C Adorno
Blog Edição MT
A morte de Lucy Harrison, jovem britânica de 23 anos, não é apenas um drama familiar nem somente um episódio judicial em análise entre Estados Unidos e Reino Unido. É, acima de tudo, um espelho desconfortável do nosso tempo.
Segundo relatos apresentados no inquérito britânico, uma discussão envolvendo o então presidente americano Donald Trump precedeu o disparo fatal. Não se trata de estabelecer causalidades simplistas, mas é impossível ignorar o simbolismo perturbador: divergências políticas ocupando o centro de tensões emocionais dentro do espaço mais íntimo possível — a família.
Vivemos uma era em que opiniões deixaram de ser apenas pontos de vista. Tornaram-se identidades rígidas, trincheiras emocionais, marcadores de pertencimento quase tribal. Discordar já não é apenas divergir; passou a ser, para muitos, afrontar valores pessoais, atacar convicções existenciais.
O debate público, que deveria ser terreno de ideias, converteu-se em território de paixões inflamadas. A política, instrumento legítimo da democracia, vem sendo sequestrada pelo radicalismo ideológico. Nesse ambiente, o outro deixa de ser interlocutor e passa a ser adversário moral.
O que espanta não é apenas o conflito. Conflitos sempre existiram. O que assusta é a incapacidade crescente de conviver com o dissenso. A discordância virou gatilho. A divergência, ameaça. O diálogo, exceção.
Nenhuma convicção política deveria ter força suficiente para romper laços afetivos, corroer relações ou transformar diferenças em tensões insustentáveis. Democracia pressupõe pluralidade. Civilidade exige tolerância. Humanidade demanda empatia.
O caso Lucy Harrison não é apenas uma tragédia pessoal. É um alerta coletivo. Quando a política invade o território dos afetos com a lógica da guerra, todos perdemos — independentemente de ideologia, partido ou líder.







