Da Redação
A Bronca Popular
A dor de Raissa da Silva Mendes, 21 anos, moradora do bairro Tonetto, em Nova Xavantina, escancara o que pode ser mais um caso grave de falha na saúde pública. Grávida de quase nove meses, ela perdeu o bebê após buscar atendimento no Hospital Municipal Dr. Daércio Oliveira de Moraes e, segundo seu relato, ser mandada de volta para casa mesmo apresentando sinais claros de urgência obstétrica.
No domingo (18/01), sentindo dores intensas e perda de líquido amniótico, Raissa procurou o hospital. Afirma ter sido atendida pelo médico Nathan Oliveira Cardoso, que teria ministrado apenas um medicamento paliativo e garantido que a situação era “normal”. Horas antes, uma ultrassonografia confirmava um feto vivo, com batimentos cardíacos normais, movimentos presentes e gestação entre 35 e 36 semanas — plenamente viável.
Menos de 24 horas depois, na segunda-feira (19/01), o cenário mudou drasticamente. Novo exame constatou ausência total de batimentos e movimentos fetais. Feto morto. A cronologia dos laudos afasta qualquer hipótese de óbito antigo ou inevitável e levanta uma pergunta incômoda: por que Raissa não foi internada no domingo para a realização do parto?
“Eu pedi para tirar meu filho no domingo. Os batimentos estavam certinhos, minha mãe autorizou, mas me mandaram embora”, desabafa. Na segunda-feira, já em sofrimento intenso, Raissa relata ter sido deixada por horas no corredor do hospital, perdendo líquido e sentindo fortes dores nas costas. “Perdi meu filho esperando atendimento”, lamenta.
O óbito foi confirmado pelo médico Adelmo Barros. Depois, já sem vida, o parto normal foi realizado — exatamente o procedimento que poderia ter sido feito no dia anterior. “Foi o pior dia da minha vida”, resume Raissa, que afirma ter passado todo o processo praticamente sozinha, acompanhada apenas da mãe.
Foto: Reprodução/WhatsApp
Daianna Rocha, secretária municipal de Saúde: silêncio, versões contraditórias e nenhuma explicação convincente sobre a morte intrauterina que chocou Nova Xavantina.
Se a tragédia por si só já exigiria explicações, a postura da Secretaria Municipal de Saúde agravou ainda mais o caso. Procurada pela reportagem, a secretária Daianna Rocha se esquivou de responder às perguntas e tentou transferir a responsabilidade para a mãe, alegando suposta falha em exames de pré-natal e diabetes gestacional. Para Raissa, as declarações são falsas e cruéis. “Nunca deixei de fazer exames”, afirma.
A reação oficial soa como tentativa de matar a reputação da mãe depois da morte do feto. Em saúde pública, esse tipo de discurso não esclarece — apenas agrava a dor e reforça a desconfiança.
Outro ponto nebuloso envolve o médico que atendeu Raissa no domingo. Nathan Oliveira Cardoso foi oficialmente convocado para assumir cargo no município apenas no dia 21 de janeiro, com publicação no Diário Oficial em 22/01. Qual era, então, o seu vínculo com a prefeitura no dia 18, quando atendeu a gestante? Ninguém sabe explicar.
A secretária de Saúde empurrou a responsabilidade para o setor de licitação, que negou relação com a contratação. O diretor administrativo do hospital também não soube informar e direcionou o caso ao diretor clínico, que não respondeu até o fechamento desta matéria.
Silêncio, desencontros e omissões. Quando a vida de um bebê se perde entre corredores, laudos e versões contraditórias, o que resta não é apenas luto — é a necessidade urgente de investigação. O espaço segue aberto para manifestações dos citados.





